• André Soltau

O escritor e o seus monstros

André Soltau . (Escrito durante a quarentena do COVID-19 em Abril/2020)




Logo eu, que tanto gosto de absorver uma cidade pelas suas ruas, costumes, cores, arquitetura, estou aqui preso à mercê de minhas memórias para construir um texto que valha o tempo de elaboração por respeito a quem irá lê-lo...


Já são mais de vinte dias em casa, com a quarentena imposta pelo COVID-19 e lembrei aqui que no mundo de Kafka toda condição humana é perigosa. Sempre gostei do que escrevia esse escritor tcheco, mas daí a começar a me sentir um personagem dele? Sei e sinto que estou em uma condição perigosa, e já explico os motivos:


Motivo primeiro: os vizinhos nem sabem, mas me contam muito sobre o que está por aí.


Da janela lateral vejo uma árvore entediada de tantos anos. Seus galhos se espreguiçam por sobre a rua. Volta e meia pássaros rompem o seu tédio com pios, pulos e voos barulhentos. Tudo num supetão só. Da janela eu não resisto em pensar sobre o que diriam os moralistas da casa ao lado se vissem os passarinhos transando nos últimos galhos. Moralistas sempre julgam, sem dialogar. Isso me enoja.


Tenho sim dado mais atenção aos barulhos desses infindáveis domingos de março impostos pela quarentena e suspeito que, sem os programas de auditório nas TVs alheias, as tardes em família ficaram mais alegres. Ou não.


Na primeira semana foi divertido pensar em uma rotina dentro de casa. Na segunda semana começo a apresentar sintomas de que a neurose ronda meus sonhos e a vizinhança pode ter traços de esquizofrenia considerando os silêncios nas varandas.


Motivo segundo: há um outro vírus à espreita.


O coronavírus é novo, bem sei. Mas não esse maldito vírus que convence as pessoas de que a economia merece viver e, se morrerem alguns milhares para manter o sistema, está tudo bem. Esse vírus tem nome e data de nascimento. Elegemos o cifrão como deus e shoppings como igrejas, em rituais repetitivos de acúmulo e compra. Ele contamina até quem tem pouco ou quase nada, na crença de que a lei do mercado é maior do que o direito à vida.

Ando desconfiado de muitas coisas, bem sei. Mas não posso culpar esse vírus que veio do oriente. Temos uma guerra discursiva e um presidente com traços de demência. Temos o caos econômico que se aproxima e alguns culpando comunistas por tudo isso. Comunistas? Temos empresários desfilando em carreata com seu carrão, mandando o povo pegar o buzão para trabalhar. O muro é ilusório. Uma hora cai.


Passo a pairar no vazio absoluto e me preocupo sim quando me vem à mente que as leis do mercado definem quem vive e quem morre.


Motivo terceiro: dessa vez o outono está mais triste.


Privado do outono, observo que as horas teimam em me oferecer fantasias e o sol nasceu nesta quarta-feira exatamente às 6:24 e irá embora às 18:11. As folhas estão sumindo de minha paciência e dando voz a uma inquietude que não é minha.


Nessa época do ano, na mesma medida em que as folhas ressecam e a temperatura vai caindo, os dias vão encurtando, a cor da paisagem muda com tons brilhantes, a luz do dia é perfeita e dá às fotografias uma vivacidade e um verde luminoso com tons quentes e suaves. Mas vou assistir esse outono da janela.


Fui privado do meu instante de outono, afinal espero o ano todo por ele com sua luz e vento que contorna a cabeça, dando leveza aos pensamentos. Perco muitas folhas nos outonos e sempre restam algumas poucas que deixam eu lembrar de quem ainda fui. Neste outono não. As folhas caíram todas em menos de dez dias.


Mas não se preocupem. Sei como achar o caminho de volta. As cores do meu outono desenharão outros caminhos. Nada ficará igual simplesmente porque as coisas só existem no discurso humano. Calma, calma e os outonos em meus pensamentos vão criar outros tons brilhantes.




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