• André Soltau

Com a palavra: Seu Júlio Kumm Neto

Atualizado: 7 de Abr de 2020

André Soltau . Outono 2020






Impossível não ficar calmo ao encontrar os olhos serenos e a voz macia deste senhor de 91 anos. Seu Júlio me deixou à vontade mesmo diante de suas mãos trêmulas, de nervoso que estava com a entrevista. Disse que nunca havia sido entrevistado.


Com a mesa cheia de fotos amareladas e inundadas de histórias, Seu Júlio foi contando uma história colada à outra, sem parar, por algumas horas. Impressionante a vitalidade desse senhor que trabalhou por anos nas operações do Porto de Itajaí em contato com o mundo todo.


Aprendeu outras línguas sozinho, ouvindo capitães de navios por meio do rádio. Sua capacidade em lembrar de roupas e descrever, detalhadamente, as operações de navios em outros tempos merece registro nesse projeto.


Ouvi por mais de uma hora essas histórias. Algumas com lágrimas nos olhos e engasgando a voz, outras acompanhadas de um riso leve.


Quase um século de vida construída na mesma cidade. Aqui serviu ao exército, começou uma profissão, casou, constituiu família e criou filhos.


Fiz um recorte em suas falas, que deixam o registro do clima dessa conversa. Rimos muito com o que narrou. Falou assim o Seu Júlio:


“Eu era do exército e ganhei um uniforme muito grande. E não é que perdi calça na enchente? Vô Valdemar, que era alfaiate, ia cortar porque era muito grande. Recortou, passou o ferro e enxugou e eu voltei para o batalhão do exército com a calça sequinha. ”


Esse trecho provocou risos em nós. Ele me contou detalhes da roupa, do cabelo, como era sua estrutura física e por onde andava naqueles tempos. Coloquei o texto em uma narrativa literária:


“Sem barba ainda, serviu ao exército. Magro e de pouca altura, ganhou um uniforme que ficava tão folgado que a calça lhe caia perna abaixo. Vô Valdemar, um alfaiate conhecido na região, ficou de ajeitar a roupa no corpo franzino do menino Júlio. Antes que o pudesse fazer, veio a enchente que tomou as ruas e o exército tinha como compromisso apoiar a população. A calça que lhe caía pelas canelas foi perdida em uma ação de ajuda. O menino Júlio ficou de ceroulas até o Vô Valdemar, enfim, ajustar a calça larga e secar com ferro quente. Mas não a tempo, porque o soldado chegou atrasado no batalhão e ganhou cinco dias de reclusão. “


No projeto PALAVRA D’ÁGUA, a escrita precisa pulsar sobre a sociedade da qual ela nasce com suas memórias e sofrimentos, suas alegrias e aspirações. A presença do Seu Júlio no projeto trouxe a fala de um lugar dessa cidade que se construiu em torno do vai e vem de navios, das chegadas e partidas de pessoas de diferentes lugares do mundo, da movimentação de produtos e riquezas, com suas perdas e ganhos. Sua fala nos transporta para um outro lugar, outro tempo, outros sentimentos.


Agradeço profundamente ao Seu Júlio pela sua disposição e alegria.


P.S. Ao final da conversa, ganhei de presente um banco feito por ele, em sua pequena marcenaria no quintal de casa. Que lindeza!



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